Quiet quitting acabou? Os dados mostram que os trabalhadores continuam se afastando do trabalho
Durante alguns meses de 2022, parecia impossível falar sobre carreira sem esbarrar no quiet quitting. O termo ganhou as redes sociais, chegou às reuniões de RH e passou a ser usado para descrever profissionais que continuavam empregados, mas deixavam de oferecer ao trabalho mais do que suas funções exigiam.
Quatro anos depois, a expressão já não ocupa o mesmo espaço nas conversas sobre mercado de trabalho. O comportamento, porém, está longe de ter desaparecido.
O State of the Global Workplace 2026, relatório anual da Gallup, mostra que apenas 20% dos trabalhadores no mundo estavam engajados em seus empregos em 2025. Outros 64% foram classificados como não engajados e 16% como ativamente desengajados.
O engajamento global caiu pelo segundo ano consecutivo.
Talvez o quiet quitting tenha saído dos feeds. O afastamento entre profissionais e trabalho continua bastante presente.
Afinal, o que é quiet quitting?
Apesar da tradução literal sugerir uma “demissão silenciosa”, quiet quitting nunca significou pedir demissão.
O termo descreve o comportamento de profissionais que permanecem em seus empregos, cumprem as responsabilidades previstas para o cargo, mas deixam de assumir tarefas adicionais, prolongar a jornada ou manter um envolvimento emocional intenso com o trabalho.
A expressão ganhou projeção internacional em 2022, impulsionada por vídeos publicados nas redes sociais e pelo debate sobre os limites entre carreira e vida pessoal após os anos mais críticos da pandemia.
Em uma análise publicada pela Gallup sobre o fenômeno, a organização estimou que pelo menos metade dos trabalhadores dos Estados Unidos poderia ser classificada, naquele momento, como quiet quitters.
A discussão rapidamente se dividiu.
Para algumas empresas e lideranças, o quiet quitting representava uma queda de comprometimento. Para muitos profissionais, tratava-se simplesmente de cumprir o trabalho para o qual haviam sido contratados e estabelecer limites mais claros.
Essa divergência nunca foi totalmente resolvida.
Fazer apenas o seu trabalho é quiet quitting?
Uma das fragilidades do termo sempre esteve na própria definição.
Se um profissional cumpre suas responsabilidades, entrega o que foi acordado e trabalha dentro da jornada prevista, classificá-lo como desengajado pode revelar mais sobre as expectativas da empresa do que sobre o comportamento do funcionário.
Durante décadas, parte da cultura corporativa associou comprometimento à disponibilidade para fazer mais.
Ficar além do horário. Assumir tarefas que não estavam previstas. Responder mensagens fora do expediente. Demonstrar envolvimento constante com a empresa.
Quando profissionais começaram a questionar essa lógica, o quiet quitting ofereceu um nome simples para um debate muito mais complexo.
O problema é que estabelecer limites e perder completamente a conexão com o trabalho são situações diferentes.
Um profissional pode recusar horas extras recorrentes e continuar interessado em sua função. Da mesma forma, alguém pode cumprir rigorosamente o horário e estar emocionalmente distante de tudo o que acontece na empresa.
É justamente nessa diferença que os dados mais recentes sobre engajamento ajudam a atualizar a discussão.
O quiet quitting saiu de moda. O desengajamento não
Segundo a Gallup, o engajamento global caiu para 20% em 2025, registrando o segundo ano consecutivo de retração.
Na metodologia da organização, trabalhadores engajados são aqueles envolvidos e entusiasmados com o trabalho e com o ambiente profissional. Os não engajados podem estar fisicamente presentes e cumprir suas atividades, mas investem pouca energia ou entusiasmo no que fazem.
A descrição é bastante próxima de parte do comportamento que, poucos anos atrás, seria imediatamente associado ao quiet quitting.
No Brasil, o cenário é um pouco melhor do que a média mundial. Dados da Gallup para o país indicam que 32% dos trabalhadores brasileiros estão engajados. A média da América Latina e do Caribe é de 30%.
Ainda assim, isso significa que a maior parte dos profissionais brasileiros não está no grupo considerado engajado pela pesquisa.
O vocabulário mudou mais rápido do que o problema.
Do quiet quitting ao quiet cracking
Desde 2022, uma sequência de novas expressões passou a tentar explicar a relação cada vez mais instável entre profissionais e trabalho.
Uma delas é o quiet cracking.
O termo ganhou repercussão em 2025 para descrever um desgaste gradual, marcado pela sensação de estagnação, insatisfação e perda de confiança no futuro profissional. Diferentemente do quiet quitting, que costuma ser associado a uma decisão de reduzir o esforço, o quiet cracking descreve um processo mais lento de deterioração da relação com o trabalho.
Há também o job hugging, comportamento de profissionais que permanecem em empregos insatisfatórios principalmente por insegurança em relação ao mercado.
Em 2026, o conscious unbossing entrou nessa lista ao descrever trabalhadores, especialmente mais jovens, que recusam cargos de gestão e promoções por não considerarem que o aumento de responsabilidade compensa os impactos na rotina e na qualidade de vida.
Os nomes mudam, mas há uma questão comum entre muitos desses fenômenos: profissionais estão reavaliando quanto espaço o trabalho deve ocupar em suas vidas e o que esperam receber em troca do envolvimento com uma empresa.
O quiet quitting foi uma das primeiras expressões virais a tornar essa mudança visível. Não foi a última.
Por que os trabalhadores estão menos engajados?
A queda no engajamento não pode ser explicada apenas por uma suposta mudança de comportamento das novas gerações.
O relatório de 2026 da Gallup chama atenção para um problema específico: a queda no engajamento dos gestores.
A organização aponta que o envolvimento dos gerentes com o trabalho sofreu uma redução importante nos últimos anos. E isso importa porque, segundo a própria Gallup, gestores exercem influência direta sobre a experiência e o engajamento das equipes.
Quando a liderança está sobrecarregada, distante ou pouco preparada para conduzir pessoas, o problema tende a se espalhar.
Falta de clareza sobre prioridades, ausência de reconhecimento, poucas perspectivas de desenvolvimento e relações ruins com gestores são fatores que ajudam a construir ambientes nos quais o profissional continua trabalhando, mas reduz progressivamente seu envolvimento.
Nesse contexto, chamar todo trabalhador desengajado de quiet quitter pode ser uma explicação conveniente e incompleta.
O comportamento individual existe. As condições de trabalho também.
O trabalho remoto tem relação com o quiet quitting?
O crescimento do trabalho remoto aconteceu no mesmo período em que o quiet quitting ganhou popularidade, o que levou parte do debate a associar os dois fenômenos.
A relação, no entanto, não é tão simples.
Trabalhar de casa pode tornar alguns sinais tradicionais de engajamento menos visíveis. Uma empresa acostumada a medir comprometimento pela presença no escritório, pela disponibilidade constante ou pela participação espontânea em conversas presenciais pode ter dificuldade para interpretar o comportamento de uma equipe distribuída.
Isso não significa que profissionais remotos estejam necessariamente menos envolvidos.
Em modelos de trabalho remoto, a discussão sobre engajamento exige critérios mais claros. Qualidade das entregas, cumprimento de responsabilidades, comunicação e contribuição para os objetivos da equipe oferecem informações mais relevantes do que o número de horas em que alguém aparece online.
Na Remotar, nós acompanhamos há anos as discussões sobre trabalho remoto e sabemos que flexibilidade não elimina a necessidade de alinhamento entre empresas e profissionais.
Na verdade, torna esse alinhamento ainda mais importante.
Quando expectativas sobre jornada, disponibilidade e responsabilidades não estão claras, a fronteira entre estabelecer limites e ser considerado pouco comprometido pode se tornar bastante confusa.
Quiet quitting ainda existe em 2026?
Se considerarmos quiet quitting apenas como uma tendência de redes sociais, provavelmente seu auge ficou em 2022.
Se olharmos para o comportamento que tornou o termo popular, a resposta é diferente.
Os dados de engajamento mostram uma força de trabalho global cada vez menos conectada emocionalmente ao emprego. Ao mesmo tempo, novas expressões continuam surgindo para descrever profissionais frustrados, estagnados, inseguros ou dispostos a reorganizar a relação com a carreira.
Quiet cracking. Job hugging. Conscious unbossing.
O mercado de trabalho parece ter desenvolvido um vocabulário inteiro para falar sobre distanciamento profissional.
Talvez isso explique por que o quiet quitting continua relevante, mesmo quando a expressão já não viraliza como antes.
O termo colocou em evidência uma pergunta que as empresas e os profissionais ainda não responderam completamente: o que, afinal, significa estar comprometido com o trabalho?
Cumprir bem as responsabilidades deveria ser suficiente? Engajamento pressupõe fazer mais do que foi combinado? Até que ponto uma empresa pode esperar envolvimento emocional de seus funcionários?
Quatro anos depois, o quiet quitting perdeu força como tendência.
O debate que ele começou continua aberto.